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Neurocirurgiã Ana Gandolfi fala dos riscos de traumas cerebrais em esportes de combate | MMA Brasil

Neurocirurgiã Ana Gandolfi fala dos riscos de traumas cerebrais em esportes de combate | MMA Brasil

O primeiro caso publicamente identificado de encefalopatia traumática crônica no MMA ligou o sinal de alerta na comunidade dos esportes de combate. Entrevistamos uma especialista em neurocirurgia esportiva para falar sobre este assunto.

Uma cratera imensa bem no meio da paisagem facial de Evangelista Cyborg, causada por choque da joelhada do meteoro Michael Page. Foi no Bellator 158, cinco meses atrás, em Londres. Impossível não ter ficado assombrado com aquele estrago. Ossos estilhaçados, Cyborg foi ao chão imediatamente logo após o golpe, demonstrando intensa dor, mas tendo permanecido consciente. O que foi aquilo? Qual o dano de uma lesão daquele tipo? O que pode acontecer a ele? Há sequelas? Foram as perguntas iniciais que pipocaram logo que diminuiu o choque da maioria dos fãs do esporte.

Além disso, tivemos recentemente o diagnóstico de encefalopatia traumática crônica (ETC), doença degenerativa do cérebro, em Jordan Parsons, lutador de MMA que faleceu aos 25 anos vítima de um atropelamento. Então lutador do mesmo Bellator, Parsons foi o primeiro caso publicamente identificado com ETC.

Entrevistamos Ana Gandolfidoutora especialista em neurocirurgia, sobretudo no que se trata de traumas de coluna e cranianos. É também uma das poucas especialistas em neurocirurgia esportiva no Brasil. Por e-mail, depois de driblarmos agendas lotadas de ambas as partes, fizemos esta breve  entrevista com uma expert em tipos de lesões familiares a quem acompanha e pratica esportes de contato, sobretudo os esportes de combate.

Trauma na cabeça. Doutora, nós aqui do MMA Brasil, colunistas e leitores, vemos muitos nocautes acompanhando esportes de combate, alguns de nós já até sofremos nocautes, ou perdemos a consciência por algum tipo de estrangulamento. Devemos nos preocupar? (risos)

Muito se avançou nos últimos anos nos estudos quanto às lesões cerebrais relacionadas ao trauma e mais ainda quando se fala de esporte. A perda de consciência, ou até a confusão mental ou “tontura” que se sente após um nocaute, é, sim, um sinal neurológico, um sinal de que houve um desarranjo no cérebro do indivíduo. Aqueles que já tiveram essa experiência no passado não devem se preocupar porque, na maioria dos casos, este evento não terá repercussões neurológicas futuras. O grande problema, porém, ocorre para aqueles que sofrem traumas de cabeça repetidos. Explico.

Temos, para simplificar, dois tipos de trauma fechado de crânio (quando não há violação da caixa craniana, como ocorre na maioria dos esportes). No primeiro tipo, o paciente terá, após o golpe, algum sintoma neurológico (perda de consciência, alteração motora, confusão mental, borramento visual, etc.) e será prontamente retirado do treino ou competição e encaminhado ao hospital. No outro tipo de trauma, a história começa igual, porém o paciente apresenta melhora espontânea após alguns minutos e volta prontamente para treinar. É aí que mora o perigo. A grosso modo, podemos dizer que quando os sintomas são passageiros ocorre “apenas” um desarranjo neuroquímico no cérebro (mesmo um exame de imagem como tomografia ou ressonância podem vir normais), que pode e vai voltar ao normal em alguns minutos, horas ou dias e que não terá grandes repercussões futuras desde que seja interrompida a atividade física. Isso porque, se o primeiro trauma não é de grande relevância, um segundo trauma, na vigência desse desarranjo provocado pelo primeiro, pode levar a lesões neurológicas graves e até a morte. Por isso que nós, médicos, insistimos tanto que um jogador ou lutador que tenha tido um primeiro golpe com sintomas neurológicos não retorne à atividade logo em seguida.

Nas Olimpíadas, tivemos a bolada que o (César) Bombom, jogador de handebol da seleção brasileira, levou no rosto e voltou a jogar. Dave Mirra, astro da BMX, se suicidou meses atrás e a hipótese mais defendida pelos médicos que o acompanhavam e por aqueles que o conheciam é que o suicídio decorreu de alterações psiquiátricas que o atleta adquiriu por traumas repetidos de crânio. Detalhe que é que ele foi para autópsia e a neuropatologista que avaliou o cérebro dele post-mortem também concorda com essa versão. Estas lesões cerebrais repetidas são doença e têm até nome: encefalopatia traumática crônica (Nota da edição: popularmente conhecida como demência pugilística no meio dos esportes de combate).

Entendi. Em qual dos dois tipos, ou nos dois tipos, há a possibilidade da síndrome do segundo impacto acontecer? Antes, o que é a síndrome?

A síndrome do segundo impacto tem como definição: sofrer novo trauma de crânio antes que o cérebro esteja completamente recuperado do primeiro trauma. Ela pode ocorrer em ambos os tipos de trauma, e com traumas por qualquer causa. Ou seja, se você sofrer um trauma de crânio em um acidente automobilístico, por exemplo, pode ter a síndrome do segundo impacto ao jogar futebol logo após.

No entanto, em termos de frequência, é mais comum que a síndrome do segundo impacto seja relacionada a concussões cerebrais leves (como primeiro trauma) porque nestes casos tem-se menos cuidado e a pessoa tende a retornar ao esporte rapidamente, antes da completa recuperação cerebral.

De quantas “concussões cerebrais leves” estamos falando? Além disso, sobre as alterações psiquiátricas decorrentes de traumas repetidos, há tratamento para isso?

As estatísticas americanas (não temos dados nacionais) falam que aproximadamente 1 em cada 5 atletas de colégio (high school athletes) terão pelo menos uma concussão durante a temporada. Estima-se que este número seja ainda maior dentre os jogadores profissionais. Quanto às alterações psiquiátricas, elas são controláveis (desde que corretamente e rapidamente diagnosticadas), porém, quando são decorrentes de lesão cerebral irreversível, elas não têm cura.

Você também é especialista em traumas de coluna. Em esportes de alto impacto, quais os traumas de coluna recorrentes? Quais os mais graves? Como costumam ser os tratamentos?

Sabe-se hoje que aqueles movimentos que levam à rotação da coluna são os mais responsáveis por lesão no esporte. Os tipos de lesão mais comuns são as hérnias de disco, que podem ocorrer nas regiões lombar e cervical e, mais raramente, também na região torácica. Se falarmos só de hérnia, os sintomas podem variar desde apenas dor até perda de função motora. Neste tipo de lesão o tratamento pode ser somente clínico + medicamentoso + fisioterápico ou cirúrgico nos casos mais graves ou com sintomas mais expressivos.

Pode ainda ocorrer fraturas na coluna. Falar das fraturas cervicais por exemplo é de extrema importância porque estas estão frequentemente associadas aos traumas de crânio. Isso porque a velocidade do impacto no crânio pode causar o que chamamos de “efeito chicote”.

Fratura cervical e trauma craniano. Uma combinação perigosa, sobretudo no contexto esportivo. A Jaqueline Carvalho (jogadora de vôlei), antes dos Jogos Pan-Americanos de 2011, passou por isso. Você pode falar mais sobre esse “efeito chicote”?

Vamos lá. O chamado “efeito chicote” ocorre quando o mecanismo de trauma é de aceleração e desaceleração. Mais ou menos o que ocorre em um acidente de carro em alta velocidade, por exemplo. Explico: quando o carro está em alta velocidade, uma pessoa que está dentro dele também está deslocando-se em alta velocidade. Quando este carro sofre uma colisão, ele é subitamente parado (forçadamente parado) e o corpo que está dentro do veiculo também o é. A questão é que, no nosso corpo, os órgãos “param” em momentos ligeiramente diferentes, o que faz o cérebro, por exemplo, colidir com a própria caixa craniana. Na coluna, o mecanismo é igual, a medula pode colidir com o canal ósseo que a suporta. Este efeito na verdade pode acontecer em todo o corpo e causar diversas lesões, mas na região cefálica e cervical, ela é especialmente catastrófica. No esporte, isso acontece durante um soco que leva a cabeça do indivíduo para trás bruscamente, por exemplo.

Eu sei que o contexto de sua especialidade é o esportivo, mas sobre o cotidiano: que situações ou faixas etárias enfrentam mais traumas de crânio?

A faixa etária mais acometida são adultos jovens, com discreta predileção dos homens sobre as mulheres. As situações mais comuns incluem: acidentes automobilísticos (em especial acidentes de moto), quedas de altura (no Brasil é MUITO comum queda da laje) e agressões.

Link: http://mmabrasil.com.br/entrevista-neurocirurgia-ana-gandolfi-fala-dos-riscos-de-traumas-cerebrais-em-esportes-de-combate

Dra. Ana Gandolfi é neurocirurgiã e especializada em lesões de cabeça e coluna relacionadas ao esporte (CRM/SP: 133.791)

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